Tombo de R$ 200 milhões no caixa com o imposto é risco para R$ 301 milhões em salários do funcionalismo
A queda na arrecadação nos primeiros dias de janeiro, estimada em cerca de R$ 200 milhões em razão da redução no pagamento do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), equivale a dois terços da folha de pagamento do mês, que inclui servidores ativos, inativos e demais vínculos do município.
A Prefeitura de Campo Grande enfrenta uma significativa queda na arrecadação do IPTU em janeiro, estimada em R$ 200 milhões, o que pode comprometer cerca de dois terços da folha de pagamento mensal. A redução representa aproximadamente 70% do total arrecadado no mesmo período de 2025, que foi de R$ 286 milhões. O cenário é agravado pelo alerta máximo nas contas públicas, com 99,94% da receita sendo consumida apenas para manter a máquina pública funcionando. O presidente da Câmara Municipal, Papy, atribui a crise à gestão da prefeita Adriane Lopes, mas pede que contribuintes mantenham os pagamentos do imposto, independentemente das questões políticas.
Conforme apurado pela reportagem, pela LOA (Lei Orçamentária Anual), o município prevê gastar R$ 3.909.904.635 com pessoal e encargos sociais ao longo do ano. Na prática, considerando os salários mensais e o décimo terceiro, o custo médio mensal da folha gira em torno de R$ 301 milhões.
O secretário de Governo do Município, Ulisses Rocha, diz que a situação preocupa, mas garante que a prefeitura tem dinheiro em caixa para os salários de janeiro, pagos no próximo mês. O problema está em outros repasses, como os feitos para hospitais e transporte coletivo, cita.
Ulisses atualizou dados divulgados ontem, dizendo que até agora foram arrecadados R$ 160 milhões, contra R$ 360 de 2025, 70% menos.
Em outubro, a Sefaz (Secretaria Municipal de Fazenda) informou que a estimativa preliminar era arrecadar R$ 950,2 milhões apenas com IPTU. Somadas as cobranças de IPTU e da TRSU (Taxa de Remoção de Resíduos Sólidos Urbanos), o montante previsto ultrapassa R$ 1,06 bilhão para 2026. Ao todo, são 430.910 imóveis tributados pelo IPTU, sendo 362.140 prediais e 68.770 territoriais.

Conforme noticiado anteriormente, o tombo de arrecadação no início do ano é significativo. Os R$ 200 milhões a menos representam 69,93% do total arrecadado em janeiro de 2025, que somou R$ 286 milhões. No mesmo período de 2024, a arrecadação havia sido de R$ 284 milhões.
Importante destacar ainda que, conforme apurado pelo Campo Grande News em novembro do ano passado, Campo Grande acendeu o alerta máximo. Dados do RREO (Relatório Resumido da Execução Orçamentária) do 5º bimestre de 2025, de janeiro a outubro, indicam que as contas da Capital operam no limite, sem margem de manobra, o que obrigou a administração a acionar formalmente um plano de emergência fiscal previsto na Constituição Federal.
O principal indicador de risco no RREO é a relação entre Despesas Correntes, que incluem gastos essenciais como salários e custeio, e Receitas Correntes, que correspondem à arrecadação total. Dos R$ 6.307.756.963,08 arrecadados nos últimos 12 meses, R$ 6.303.744.755,75 foram consumidos, o que resulta em um comprometimento de 99,94%.
Na prática, isso significa que, a cada R$ 100 arrecadados pela prefeitura com impostos e transferências, R$ 99,94 são usados apenas para manter a máquina pública em funcionamento. A própria prefeitura reconhece que houve certa recuperação na arrecadação, com uma retomada leve, mas avalia que o cenário segue instável, em razão da situação epidemiológica e do aumento no atendimento de síndromes respiratórias.
Crise? — Diante desse cenário e do tensionamento entre Executivo e Legislativo — que incluiu a apresentação de um projeto de lei para sustar o decreto que reajustou o IPTU — o presidente da Câmara Municipal, vereador Epaminondas Neto, o Papy (PSDB), afirma que há preocupação com a estabilidade econômica, mas diz que a crise não pode ser usada para silenciar o Legislativo.
“Lógico que tem uma preocupação com a estabilidade econômica do município. E nunca as nossas ações foram no sentido de criar instabilidade. Desde o início estamos nisso. Mas isso também não pode ser uma pressão para não manifestação da Casa. Porque esse problema é da Adriane”, disse Papy.
O vereador atribui a queda de arrecadação às decisões da prefeitura em relação ao IPTU. “Foi ela que aumentou o imposto, foi ela que não falou com ninguém, foi ela que não voltou atrás do desconto, foi ela que criou instabilidade, foi ela que não comunicou direito, foi ela que não aumentou o servidor lá na Casa do Cidadão para explicar, foi ela que não usou a imprensa para comunicar com a população. Eu não fiz isso, não fomos nós que fizemos isso”, afirmou.
Segundo Papy, a atuação da Câmara ocorreu após pressão da população e de entidades. Ele avalia, porém, que não foi o embate político que provocou a queda da arrecadação, mas o próprio reajuste do imposto. “Não foi a sessão extraordinária que afetou a arrecadação. Ela já está perdendo arrecadação desde dezembro, quando aumentou o imposto. Então o Executivo tem que começar a tomar a responsabilidade deles, porque senão fica jogando a culpa nos outros toda hora”.

O presidente da Câmara também aponta falhas de comunicação da gestão municipal. “Eles estão mais conscientes de que precisam melhorar a comunicação conosco e com a população. Ela viu que fez uma estratégia ruim. Isso está gerando uma insatisfação na população.”
Apesar das críticas, Papy faz um apelo para que os contribuintes não deixem de pagar o IPTU, independentemente das insatisfações políticas. “Eu acho que ninguém deve deixar de pagar IPTU por causa de prefeito ou vereador. ‘Não gosto do prefeito, não vou pagar IPTU’, ‘não gosto da Câmara, não vou pagar IPTU’, ‘não gosto da prefeitura, não vou pagar IPTU’. Isso não tem nada a ver, porque IPTU é da cidade. A cidade vai viver mais 100, 200 anos, e eu vou ter mais três anos de mandato.”
“A população tem que pagar confiando nas instituições. Tem o campo jurídico, tem o campo político debatendo. Se tiver um desfecho de economia para o bolso do contribuinte, vai ser via prefeitura, crédito, enfim. Se a Justiça entender que a prefeitura tem razão e que tem aumento de imposto, quem pagou, pagou certo. Mas não pagar agora é a pior coisa.”
Para ele, incentivar a inadimplência agrava ainda mais a crise. “Quem está nesse discurso está querendo, sim, gerar um problema para a cidade”, completou o presidente da Câmara Municipal.
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