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CPI Investiga Lavagem de Dinheiro em Logística de Combustíveis


Estrada das Balsinhas, em Iguatemi (MS), aparece como elo logístico no “andar de baixo” do crime organizado

Esquema investigado por CPI pode ter base logística em rota do combustível de MS
Reunião da CPI do Crime Organizado, instalada em novembro do ano passado (Foto: Andressa Anholete/Agência Senado)

A CPI do Crime Organizado começa a desenhar um roteiro de investigação para conectar duas extremidades do crime organizado: o “andar de baixo”, onde operam cadeias logísticas e dinheiro vivo do tráfico em escala empresarial; e o “andar de cima”, onde circulam fundos, bancos, contratos e relações institucionais capazes de dar aparência de normalidade a engrenagens de lavagem de dinheiro.

A CPI do Crime Organizado investiga conexões entre operações criminosas de base e estruturas financeiras sofisticadas. O foco está em um esquema de combustíveis que utiliza Mato Grosso do Sul como ponto estratégico, especialmente na região de Iguatemi, próxima à fronteira com o Paraguai. A investigação busca entender como o dinheiro do crime organizado transita do submundo empresarial para o sistema financeiro formal. O Banco Master surge como possível intermediário nesse processo, levando a CPI a examinar a relação entre dinheiro, política e instituições financeiras de alto nível.

O pano de fundo dessa investigação é o relatório da Operação Carbono Oculto, que descreve um ecossistema de lavagem, distribuição, formulação e revenda de combustíveis, com arquitetura de ocultação patrimonial e fraude societária.

É nesse contexto que Mato Grosso do Sul aparece como peça-chave do “andar de baixo” da engrenagem. A Carbono Oculto lista empresas e endereços de interesse investigativo e aponta como um dos pontos estratégicos a Rodovia das Balsinhas, em Iguatemi, município localizado na faixa de fronteira e em rota sensível na dinâmica Paraguai–MS–SP.

No local, aparecem distribuidoras como Duvale, Safra, Arka, Império, Maximus, Start Petróleo e Alpes, entre outras. Para investigadores, a concentração dessas empresas no mesmo eixo geográfico reforça a hipótese de que a fronteira sul-mato-grossense tenha funcionado como base logística das facções criminosas.

Segundo o relatório, a distribuidora Duvale aparece “atualmente envolvida” com Daniel Dias Lopes, aproximando um personagem ligado ao núcleo da facção, que já cumpriu pena por tráfico e está foragido, do setor de combustíveis apontado pela PF.

A CPI quer entender se o dinheiro movimentado em operações desse tipo, sustentadas por empresas de grande circulação, teria encontrado caminho para estruturas de fundos, gestoras e instituições bancárias.

A hipótese política, ainda em construção, é que o circuito descrito pela Carbono Oculto teria capacidade de gerar caixa e ativos em escala suficiente para alimentar operações financeiras complexas, chegando ao topo do sistema.

É nessa camada superior que o Banco Master surge como possível ponto de interseção, citado como parte de um ambiente em que circulam fundos, operações de investimento e relações institucionais de alto nível.

Esquema investigado por CPI pode ter base logística em rota do combustível de MS
Movimentação da Receita Federal em São Paulo, durante Operação Carbono Neutro em 2025 (Foto: Divulgação)

Ao mirar Vorcaro e figuras próximas ao banco, a CPI tenta entrar num território historicamente blindado: a relação entre dinheiro, política e estruturas financeiras.

O salto investigativo é justamente o que separa esses dois mundos: a passagem do dinheiro gerado em redes empresariais suspeitas para mecanismos financeiros sofisticados que reinserem recursos no sistema formal.

O nome do controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, aparece no centro do radar do Senado, ao lado de personagens ligados ao banco e a estruturas que podem ter funcionado como intermediárias em operações de fundos e investimentos.

O movimento é politicamente explosivo porque, ao incluir o Banco Master no escopo de uma CPI que pretendia dimensionar a criminalidade,, lavagem e infiltração da delinquência organizada, o Senado passa a apurar não apenas uma instituição sob suspeita, mas um possível mecanismo de intermediação capaz de conectar o sistema financeiro formal a redes empresariais investigadas em operações da Polícia Federal.

No fundo, a CPI tenta montar um quebra-cabeça que vai do submundo do tráfico e da logística de combustíveis à sofisticação do mercado de capitais, passando pelo obstáculo mais resiliente: a blindagem jurídica e a suspeita de que honorários, consultorias e contratos com grandes bancas tenham servido para conferir aparência de legalidade a fluxos financeiros contaminados.

Essa percepção ganhou força com declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista ao UOL, na quinta-feira (5). Lula voltou a tratar o caso como oportunidade rara de romper a impunidade das elites econômicas e disse ter convocado o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, para discutir o tema. “Nós estávamos diante da primeira chance real de pegar os magnatas da corrupção, da lavagem de dinheiro nesse país”, afirmou. Em outro trecho, reforçou: “Não me importa que envolva político, não me importa que envolva partido, não me importa que envolva banco”.

Ao mencionar o Master e questionar relações do banco com estruturas públicas — incluindo suspeitas envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e aplicações de recursos por governos estaduais,Lula reforçou o enquadramento de que o caso ultrapassa uma crise bancária e pode revelar uma engrenagem mais ampla de circulação de capitais. Para o presidente, o objetivo é impedir que um eventual rombo se torne um marco de impunidade e, ao contrário, funcione como caminho para alcançar o topo das estruturas de lavagem.

Esquema investigado por CPI pode ter base logística em rota do combustível de MS
O relator da CPI, Alessandro Vieira (MDB-SE) (Foto: Divulgação)

Terno e gravata

No Senado, o relator da CPI, Alessandro Vieira (MDB-SE), tem sustentado que a apuração precisa ir além da superfície e rastrear mecanismos financeiros usados para ocultar patrimônio e dissimular movimentações. O foco recai sobre operações de fundos, estruturas de investimento e contratos milionários que, segundo a linha de investigação, podem ter servido como “ponte” entre o dinheiro gerado em redes empresariais sob suspeita e a reinserção desse capital no circuito formal.

Entre os personagens de interesse investigativo, além de Vorcaro, surgem nomes como Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, apontado como sócio do Master, e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio da instituição. A CPI também mira empresários e estruturas jurídicas ligadas a contratos e relações de prestígio que, em tese, poderiam funcionar como camada de proteção institucional.

A estratégia da comissão, ao menos até aqui, é construir um mapa que permita cruzar dados do submundo empresarial e do sistema financeiro com redes de influência que cercam grandes operações bancárias. O que está em jogo, na narrativa política que se forma em torno da CPI, é a tentativa de demonstrar que o crime organizado não opera apenas no varejo ou atacado do tráfico e da logística — mas também na engrenagem superior do mercado, onde a lavagem ganha “terno e gravata” e dialoga com a elite da política.



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