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Câmara de Campo Grande pode derrubar taxa do lixo em sessão extraordinária


Legislativo aposta em irregularidades no processo do PSEI para suspender valores embutidos no carnê do IPTU

Mudança no perfil da cidade será brecha para vereadores derrubarem taxa do lixo
Conselheiro do TCE-MS, Osmar Jeronymo ao lado do presidente da Câmara, Papy (Foto: Ketlen)

A Câmara Municipal de Campo Grande aposta em brechas legais na forma como a taxa de coleta de lixo foi reajustada para tentar derrubar os valores cobrados dos contribuintes no carnê do IPTU. A estratégia será levada à votação em sessão extraordinária na noite desta segunda-feira (12), marcada após semanas de pressão popular e articulação política, e se baseia principalmente em inconformidades no uso do PSEI (Perfil Socioeconômico Imobiliário) e na maneira como o aumento foi comunicado à população, apenas no fim do ano, às vésperas da entrega dos carnês.

A Câmara Municipal de Campo Grande busca derrubar o reajuste da taxa de coleta de lixo, principal responsável pelo aumento nos carnês do IPTU. A estratégia, que será votada em sessão extraordinária, baseia-se em irregularidades no uso do Perfil Socioeconômico Imobiliário (PSEI) e na forma abrupta como o aumento foi comunicado à população. O presidente da Câmara, Epaminondas Neto, destaca que o foco não é o IPTU, que teve apenas correção do IPCA-E, mas a taxa do lixo. Entre as inconsistências apontadas estão o prazo inadequado para apresentação dos aumentos e a análise técnica realizada por servidores da tributação, quando deveria ser feita por auditores do urbanismo.

O posicionamento foi detalhado pelo presidente da Câmara, vereador Epaminondas Neto, o Papy (PSDB), após reunião realizada na tarde desta segunda-feira (12) com o conselheiro do TCE-MS (Tribunal de Contas do Estado), Osmar Jeronymo, responsável pelas contas da Capital.

Segundo Papy, desde o início da legislatura a Câmara tem buscado diálogo institucional com outros poderes e órgãos de controle, justamente para embasar tecnicamente decisões que impactam diretamente a população.

Apesar de reconhecer as dificuldades financeiras enfrentadas pelo município, o presidente da Câmara deixou claro que o Legislativo entende que houve excesso por parte do Executivo na forma como o reajuste foi implementado.

“Nós entendemos a dificuldade financeira do município, mas o Legislativo precisa atender o anseio da população e fazer esse enfrentamento, discutindo com o próprio Executivo aquilo que a gente discorda, aquilo que a gente acha que ultrapassou uma questão de razoabilidade para o contribuinte e de previsibilidade”, disse.

Um dos principais pontos criticados por Papy é a ausência de diálogo prévio e de comunicação ao longo do ano sobre a necessidade de aumento na arrecadação da taxa do lixo. Segundo ele, valores expressivos só vieram a público entre dezembro e janeiro, quando os carnês já estavam prestes a ser entregues.

“Se o ano que vem a cidade precisa arrecadar mais, isso precisa ser comunicado desde janeiro. Ir mostrando as dificuldades financeiras, os 130 milhões de taxa de lixo. Quem sabia disso? Onde foi colocado que a cidade precisava de 130 ou 140 milhões para custear o lixo?”, questionou.

Para o presidente da Câmara, a construção do aumento de forma “abrupta” contraria a premissa do Legislativo de defesa do contribuinte. “De meio de dezembro até janeiro é que nós estamos falando desse assunto. Se o campo-grandense tiver a compreensão, investir em comunicação com isso, dialoga com os poderes, principalmente com a Câmara, você vai desmistificando muitas coisas. Da forma como foi feito, vai contra aquilo que a Câmara tem como premissa, que é defender as pessoas”, afirmou.

Mudança no perfil da cidade será brecha para vereadores derrubarem taxa do lixo
Presidente da Câmara, vereador Papy, durante coletiva de imprensa (Foto: Ketlen Gomes)

Foco na taxa do lixo, não no IPTU – Papy reforçou que o foco da sessão extraordinária não é o IPTU em si, mas a taxa de coleta de lixo, que foi o principal fator de elevação dos valores dos carnês. “O IPTU tem só a incidência do IPCA-E. Então, você não tem aumento de IPTU. O que existe é a questão do desconto para pagamento à vista”, explicou.

Segundo ele, o corpo técnico-jurídico da Câmara avalia que o Legislativo não tem competência para impor ao Executivo um percentual específico de desconto no IPTU, já que isso é uma decisão discricionária da Prefeitura. “Hoje pode ser 10%, amanhã pode ser 12%, isso é uma decisão do Executivo dentro dos cálculos dele”, disse.

Já no caso da taxa do lixo, a avaliação jurídica é diferente.“A taxa do lixo foi utilizada com um instrumento que tem inconformidades com a lei. Isso nós vamos apresentar hoje na sessão. O nosso corpo jurídico atesta que nós temos competência para fazer essa revogação e propor uma lei que interrompa o aumento da taxa do lixo”, afirmou.

Papy foi direto ao afirmar que, na prática, o que elevou significativamente os carnês foi a taxa de lixo. “O que aumentou de fato o valor dos carnês não foi o IPTU, foi a taxa do lixo. É isso que nós vamos discutir hoje. E vale ressaltar: a Câmara não teve participação nesse aumento. Essa é uma decisão do Executivo Municipal”, disse.

Entre os principais argumentos que serão usados na sessão extraordinária estão supostas irregularidades na aplicação do PSEI, instrumento que redefiniu o perfil socioeconômico dos imóveis e impactou diretamente no valor da taxa.

“O PSEI não teve o prazo que precisava ter. Você tem que ter um prazo de 90 dias da apresentação dos aumentos. E quando você altera o PSEI para gerar aumento de tributo, você precisava passar pela Casa. Esse é um ponto”, explicou Papy.

Outro questionamento levantado diz respeito a quem realizou as análises técnicas.“A questão foi passada para os fiscais e auditores fiscais da tributação. E a avaliação da maioria do corpo jurídico, não só da Câmara, mas também da OAB e de outros membros do campo jurídico, é de que o servidor correto para analisar potencial construtivo e perfil socioeconômico seriam os auditores do urbanismo, e não da tributação”, afirmou.

Segundo ele, essas inconformidades dão base legal para que a Câmara intervenha e tente suspender os efeitos do decreto que reajustou a taxa.

Expectativa de votação unânime – O presidente da Câmara afirmou que, apesar de divergências individuais ao longo do debate, a expectativa é de que os vereadores presentes votem de forma unânime na sessão extraordinária.

“Todos entendem que o aumento passa do limite, que impõe uma surpresa para o contribuinte e que precisaria ter sido feito de outra forma. Não somos contra reajustar ou mudar o perfil socioeconômico dos bairros. O problema é a forma como foi feita”, disse.

Possível veto

Papy reconheceu que, mesmo com eventual aprovação do projeto pela Câmara, a decisão final ainda passa pelo Executivo, já que a prefeita pode sancionar ou vetar a proposta.

“Nós vamos usar o instrumento da lei complementar, que é o instrumento legal que nós temos hoje. Mas precisa do Executivo, porque somos dois poderes. Ela pode vetar, essa é uma realidade, e terá que apresentar os motivos do veto e comunicar ao campo-grandense o porquê disso”, afirmou.

Segundo ele, quanto mais explicações forem dadas à população, melhor para o debate público. “O Executivo pode convencer o contribuinte de que isso é importante. Nós aqui temos a atribuição de dizer que a Câmara não participou, que poderia ter participado, e que foi chamada agora para defender o contribuinte”, disse.

Papel do Tribunal de Contas – O conselheiro do TCE-MS, Osmar Jeronymo, explicou que o papel do Tribunal, neste momento, foi o de sugerir medidas e solicitar esclarecimentos ao Executivo. “O tribunal contribuiu com sugestões. Eu enviei um primeiro ofício pedindo explicações, depois elas foram encaminhadas. No segundo ofício, sugeri que a prorrogação do prazo à vista também fosse aplicada aos parcelados”, afirmou.

Segundo ele, a análise sobre eventual déficit na taxa do lixo e sobre a correção dos valores só poderá ser feita quando as contas do município forem formalmente encaminhadas ao Tribunal.

“Essa análise é feita quando as contas chegam para nós. As contas de 2025 ainda não chegaram, estamos analisando as de 2024. Quando chegarem, a equipe vai verificar se o que a prefeitura está dizendo é correto ou não”, explicou.

Jeronymo também afirmou que, quanto à taxa do lixo, o Tribunal não se manifestou sobre legalidade neste momento. “Isso é uma medida do Executivo. O tribunal vai analisar lá na frente, quando as contas do município chegarem para nós”, concluiu.

Com base nessas avaliações jurídicas e políticas, os vereadores esperam usar as falhas apontadas no processo de reajuste para suspender os novos valores da taxa do lixo durante a sessão extraordinária.



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